04/06/2014

Review: Rock in Rio, Lisboa - 29 de maio (2014)

Texto da autoria de Diogo Barreto

2014 é o ano em que se celebra o fim da primeira década de Rock in Rio Lisboa. O mítico festival que se realizou pela primeira vez em 1985, na cidade do Rio de Janeiro e chegou a terras lusitanas em 2004, após três edições realizadas no Brasil.

A sexta edição do festival, que assinala assim os dez anos de existência, tem portanto um grande peso nos ombros e uma ainda maior responsabilidade para com os fãs do festival. E não desiludiu. Nesta edição, a organização trouxe nada mais, nada menos que a “maior banda de Rock & Roll do mundo”: os míticos Rolling Stones, para encabeçarem a segunda noite do festival.

Os bilhetes para o dia 29 de Maio esgotaram, sendo vendidas 90.000 entradas para o Parque da Bela Vista, nesta cinzenta tarde de Primavera. As portas abriram às 15 horas, para deixar entrar os mais ávidos e os que queriam marcar presença frente ao Palco Mundo. A entrada flui confortavelmente até para os que chegam às cinco (como é o caso). O recinto está já bastante composto, mas dirigindo-nos até ao Palco Vodafone, vemos que a audiência do músico português Frankie Chavez deve rondar uns meros cem espectadores.

  • Gary Clark Jr.
Gary Clark Jr. subiu ao palco pouco depois das dez da noite. O seu aspecto calmo e descontraído coincide com a sua postura e sonoridade. O guitarrista começou o concerto atacando um blues de Robert Petway e teve ainda tempo para revisitar If Trouble Was Money do inesquecível Albert Collins – com direito a solo excepcional e a arrancar da boca de alguém perto de mim “Como é que ele faz isto?”. Clark Jr. fez também ouvir as suas composições como When My Train Pulls In, Numb ou Ain’t Messin’ Around e, em cada música que Clark tocava, ficava mais claro que ele é o futuro do Blues.
É que em cada riff, em cada solo, em cada palavra pronunciada na sua voz grave e suave, Clark proclamava para si próprio, sem pretensão de tal, esse título.

Alguns dos destaques do concerto vão para o soul de Please Come Home, em que o guitarrista juntou ao falsete da sua voz um solo comovente e cheio de técnica, num dos momentos mais mágicos da noite. Vieram ainda as músicas Don’t Owe You a Thang, Blak and Blu e por fim a excepcional Bright Lights com direito a solo de Zapata! e do grande Gary!
Apresentação da banda e um “Thank you, thank you, thank you, THANK YOU! To all of you… Peace!” e vemos o quarteto abandonar o Palco Mundo.

Uma banda que não preenche um palco assim tão grande, um frontman que não parece estar à vontade perante um mar tão grande de gente e um concerto que parece não ter agradado a maior parte dos milhares que enchiam o recinto, que enfrentaram o concerto meio anestesiados, esperando pelos The Rolling Stones. No entanto, Gary Clark Jr. fez tudo bem. Mostrou quem era. Um misto entre Hendrix e Gaye. Um Lenny Kravitz mais moderno e mais retraído. Um Bluesman do século XXI.

Nesta bela noite que se formou, Gary Clark, comprovou o que Gil Scott-Heron uma vez afirmou: “there are at least 500 shades of The Blues”. E ele pintou a Bela Vista com os mais diversos e belos tons de azul.
  • Xutos & Pontapés
Às oito e meia, estava na hora de Xutos & Pontapés. A mítica banda portuguesa marcava a presença pela sexta vez no festival. Parece que não há Rock in Rio Lisboa sem Ivete nem Xutos. E ainda bem.

É bom ver que a banda portuguesa consegue ter influência num cartaz tão internacional como o deste ano. O concerto começa com três canções do novo registo da banda, Puro, seguido das favoritas do público, como ContentoresHomem do LemeChuva Dissolvente ou Maria. Há espaço para comentário político em Dia de S. Receber, em que Kalú canta “Ai Coelhinho, se eu fosse como tu, pegava na Troika e enfiava-a no co…elhinho”.
O espectáculo termina com Circo de Feras, do registo homónimo de 1987. Sendo os Xutos & Pontapés uma instituição portuguesa, é normal terem de tocar certos temas emblemáticos, mas sente-se falta de temas mais roqueiros e tão (ou mais) clássicos, como Sémen ou Remar, Remar.
  • Rui Veloso + convidados
Por volta das sete, tem início o concerto do nortenho Rui Veloso, do brasileiro Lenine e da cantora beninense (do Benim) Angélique Kidjo, no Palco Mundo. Desfilaram canções dos três intérpretes, com destaque para êxitos de Veloso, como Chico FininhoLado Lunar ou A Paixão e covers como Redemption Song de Bob Marley, cantada por Angélique, ou Voodoo Child (Slight Return) do mestre Hendrix, interpretada por Kidjo e Veloso ou até mesmo Sodade de Cesária Évora.

A actuação no Palco Mundo faz todo o sentido, já que o palco encheu-se de sonoridades de três continentes distintos.
  • Frankie Chavez
O músico Francisco Chaves lançou há pouco tempo o seu segundo álbum Heart & Spine e veio ao palco secundário do Rock in Rio apresentá-lo. Aos primeiros acordes de Frankie, vemos alguns com um olhar espantado de como quem pensa “Não era disto que estava à espera!” e alguns sorrisos de quem sabia perfeitamente ao que vinha e que não ficou desapontado. Durante pouco menos de uma hora, o músico fez com que se ouvissem no parque da Bela Vista canções do seu mais recente trabalho, bem como do seu repertório mais antigo – quem diz antigo, diz 2011.
Acompanhado por Nuno Lucas no baixo e João Correia na bateria, o guitarrista fez desfilar um conjunto de guitarras eléctricas, acústicas, uma pedal steel guitar e até uma guitarra portuguesa (tocada de uma forma roqueira), que acompanharam a sua viagem pelo Rock, Blues e Folk. O concerto atingiu o clímax quando soaram os primeiros acordes da música Fight, retirada do seu último registo. O público teve direito a agradecimentos e até à confissão de que era muito especial poder tocar no mesmo dia que os The Rolling Stones. Valeu, Frankie, valeu.

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