- a parte 1 da review está disponível aqui -
The Rolling Stones
Faltam poucos minutos para a meia noite, quando de um palco escuro se começa a ouvir a precursão característica de Sympathy for the Devil, acompanhada de projecções a vermelho nos ecrãs em palco e de “Woo, woo’s” vociferados pelos 90.000 fãs dos Stones que se encontravam no recinto.
Faz-se silêncio e um Mestre-de-cerimónias anuncia o seguinte: “Ladies and gentlemen, will you please welcome the Rolling Stones?!” e a banda é agraciada com berros de entusiasmo à medida em que se lançam para a incrível Jumpin’ Jack Flash. À frente da maior banda do planeta, vem o homem mais fixe de sempre: o único e incomparável Mick Jagger!
Jagger não perde tempo e solta logo a sua persona de palco: um músico cheio de carisma, energia e bravado! A banda parte directamente para o segundo tema: It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It). Bom título, mas não é exactamente verdade. Tudo o que acontecerá nas duas horas seguintes é bem mais que Rock N’ Roll. É uma festa, é um pedaço de história, é uma experiência única.
Jagger vocifera um típico “Olá Lisboa! Olá Portugal! É bom estar de volta!” e depois uma desculpa a dizer que não sabe mais nada em português, o que se verificará ser mentira.
Um aquecimento forte e um óptimo preâmbulo para o que se seguiria. Seguido de uns “Oh Yeahs” trocados com o público, Mick afirma que tem um convidado especial que irá cantar com a banda uma música. Mas poucos esperavam que esse convidado fosse o único, o genial, o Boss: Bruce Springsteen! A apoteose da noite chegou com a quarta música, quando o Boss se junta aos Rolling Stones para tocarem juntos “Tumbling Dice” do mítico Exile on Main Street de 1972.
Bruce vem acompanhado da sua guitarra e junta à música o seu tom rouco que encaixa perfeitamente, principalmente no verso em que afirma “You can be my partner in crime”. Guitarra para trás das costas e lá vem o Boss a acompanhar Jagger para a língua do palco, para deleite dos fãs.
Um momento que ficará na memória de todos os presentes. Uma história para fazer inveja a qualquer um. Um trunfo para a vida. Obrigado Stones. Obrigado Boss.
Segue-se um interlúdio - em português! - agora para apresentar uma música mais “romântica”.
Soltam-se os acordes de Wild Horses, com as guitarras acústicas a serem preteridas pelas eléctricas, mas sem perder o sentimento de beleza que nos corre pela espinha sempre que ouvimos esta excelente faixa do álbum Sticky Fingers.
Momento para um pouco de descontracção, em que Jagger fala sobre o Campeonato do Mundo de Futebol, mostrando que gostava de ver na final Inglaterra contra Portugal. Tudo isto em Português.
Afinal Jagger domina o seu português – talvez por ter um filho brasileiro; seja qual for a razão, é bem vinda esta interacção na bela língua de Camões. Seguiu-se Gloom and Doom, uma das melhores músicas da banda das últimas décadas. Depois Mick pergunta se o público está a gostar do dia: Dos Xutos & Pontapés? E do Gary Clark Jr.? É então que o vocalista informa que este é o próximo convidado e que irá tocar Respectable.
O músico subiu ao palco e não desiludiu, tocando com a competência que nos tinha demonstrado no concerto anterior e mostrando um à vontade com a banda – para quem abrira algumas vezes na digressão anterior. Honky Tonk Women tem direito a um vídeo a acompanhar, a lembrar a história de King Kong, mas desta vez é a mulher (e que voluptuosa que ela é) que se segura no pináculo do Empire State Building e é o gorila que aparece na capa de GRRR! quem comanda o ataque aéreo que termina com perda do sutiã da protagonista. Um pequeno momento de erotismo animado a acompanhar a grande música que é este Blues.
Surge uma oportunidade de Jagger fazer um intervalo, após apresentar a excelente banda: a “bonita” Lisa Fischer, Bernard Fowler nas vozes de apoio, Tim Ries e Bobby Keys no saxofone alto e tenor (respectivamente), Daryl Jones no baixo, Chuck Leavell nos teclados e depois a apresentação do corpo principal da banda: na guitarra, Ronnie Wood – com um comentário de Jagger em português a perguntar onde este tinha comprado os sapatos -, na bateria, Charlie Watts e na guitarra e vocais, Keith Richards. Seria a banda, sem Mick que tomaria conta das duas músicas seguintes.
Seguem-se depois alguns dos muitos hits da banda, já com Jagger de volta a palco. Desfilam pelo Rock in Rio Lisboa temas como a disco-influenced Miss You, com direito a “Ooooh ohhh’s” do público, o blues de Midnight Rambler com o antigo guitarrista Mick Taylor que trocou solos com Richards e Wood e as electrizantes Start Me Up e Brown Sugar.
Destaque para duas músicas tocadas durante esta sequência: Sympathy for the Devil e Gimme Shelter. A primeira mostrou o lado mais teatral da Jagger que encarnou a personagem de Lucifer, com um longo casaco vermelho, enquanto cantava um dos temas mais emblemáticos da banda, completada pelo excelente solo de Richards e os “Woo, Woo’s” do público.
Gimme Shelter é uma das mais entusiasmantes músicas do excelente disco Let it Bleed de 1969 e uma das mais imponentes da carreira dos Stones. Na versão original, a voz feminina é de Merry Clayton, mas Lisa Fischer fez um óptimo trabalho a interpretar a faixa, deixando todos os ouvidos rendidos à sua voz poderosa, que dá corpo e alma à música, constituída por uma letra obscura: “Rape, morder/ It’s just a shot away”, mas que termina num tom mais risonho: “Love, sister/ It’s just a kiss away”.
A banda sai de palco apenas para voltar passado uns minutos. Não é um concerto de rock sem pelo menos um encore. A música que se segue adivinha-se com facilidade quando vemos um coro em palco. You Can’t Always Get What You Want tem a abrir o Coro Ricercare de Lisboa e é depois levado a cabo pela voz de Jagger e pelo público.
Para fechar o concerto temos a mítica (I Can’t Get No) Satisfaction, música que é o lema da banda que rivalizou com os Beatles, mas que foi responsável por trazer o legado dos anos 60 até aos dias de hoje. Todos os que vimos os Stones nesta fantástica noite ficámos um bocado mais ricos, mas também com uma ânsia maior de repetir. We can’t get no satisfaction!
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